ULPIANO T. BEZERRA DE MENEZES

Zoravia embaralha e subverte as taxonomias tradicionais, que sempre procuraram assegurar um mínimo de tranquilidade. Antes de mais nada, ela mesma explicita uma taxonomia que guarda ar de família com aquela do sábio chinês citado por Jorge Luís Borges: totem, cadeiras para animais, para personagens históricos, para personagens míticos e\ou religiosos, para profissões, para os estereótipos do cotidiano, para locais… Depois, porque há também uma taxonomia implícita, que, longe de se pautar por critérios como matéria-prima, morfologia, fisiologia, tecnologia ou semântica, orienta-se em busca de adaptação e, mais que isso, assimilação entre a coisa e sujeito – tal como perceberam os psicólogos sociais que não hesitaram em falar do artefato como extended self. Não é de estranhar que a principal taxonomia implícita, assim, diga respeito às metamorfoses que sofrem os objetos (no caso, principalmente pelo tratamento dado ao encosto e pés), para se apropriarem dos corpos e campos de atuação de seus destinatários. Temos, pois, cadeiras zoomorfas, as mais numerosas: a cadeira alada da borboleta azul; a da girafa, cujas pernas curtas e pescoço longo integraram-se à forma; a da zebra que, por osmose, listrou o móvel todo. Temos também cadeiras fitomorfas, em que os banquinhos ‘campestres’ assumiram propriedades de vegetais, como o cogumelo e a decoração em ‘petit-pois’, ou as cadeiras crematomorfas (em forma de objetos), em que o violoncelo do músico fornece os parâmetros para o instrumento.

Para terminar, as cadeira de Zoravia podem até estar disponíveis em lojas de móveis, brechós e antiquários, ou ateliês de decoração. Elas são da mesma família espiritual que os itens do já famoso catalogue d’objets introuvables repertoriado por Jacques Carelman. Cadeiras, prá que te quero? Prá pensar, e da melhor maneira, que é divertindo-se. Ou, para dizer a mesma coisa mas com aparência mais técnica, sisuda e apropriada aos praticantes dos estudos de cultura material: há objetos cujos atributos servem para entrar em ação; outros, como os destas cadeiras, servem para entrar em consciência.

                                                                              ULPIANO T. BEZERRA DE MENEZES

                                                                                                              Porto Alegre, 2004

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