Paulo Gomes

Olhar a obra gravada de Zoravia Bettiol é um exercício que demanda tempo e cuidadosa atenção […]

[…] A gravura, para Zoravia Bettiol, é uma técnica sem alienação, um meio frontalmente em oposição à produção de massa e ao nivelamento industrial. A insistência no popular, o desprezo pelo caráter documental, o folclore, a referência ao povo e o teor poético são constantes temáticas já assinaladas, em 1982, por Carlos Scarinci. Seu universo permite o convívio de deuses do candomblé, namorados, os protagonistas do circo, erotismo, Kafka, Bíblia, deuses olímpicos, todas narrativas nas quais suas personagens partilham temas amplos que permitem à artista um mergulho na afetividade e na memória.

Gravar é um modo de proceder que envolve a capacidade de redução. Enquanto que a pintura unifica a figura e o fundo, a gravura se propõe a separá-las e, exercendo uma função de síntese e de clarificação, extrai da linha somente o contorno, abrindo mão de todo o benefício da picturalidade e exigindo uma participação suplementar do espectador. A gravura, enquanto processo de reprodução que se volta contra a reprodução banalizada, tem, em Zoravia Bettiol, “um raro caso de linguagem parafrásica pura, poética centrada no exterior, na citação, numa visão idílica e acrítica”, conforme escreveu Carlos Scarinci (1982: 173). Zoravia é uma artista consciente, que soube adaptar completamente a imaginação e a técnica às exigências do seu meio particular ou, nas suas próprias palavras: “Eu não renego nada do que fiz. Não tenho essa vaidade. Assumo os meus aspectos vulneráveis, porque eles fazem parte da minha trajetória profissional, mas às vezes conseguimos nos auto superar. Temos nossos limites”.

Quanto rigor pode se ocultar por detrás da aparente simplicidade!

Paulo Gomes

Texto para o livro Zoravia Bettiol – A Mais Simples Complexidade

Porto Alegre, 2007

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