Paula Ramos

Costumo dizer, inclusive publicamente, que se Porto Alegre tivesse mais três Zoravias, a morosidade cultural não seria tão acentuada. […] Zoravia é movida por um desejo retumbante de produzir sempre, de fazer várias coisas e de mudar aquelas que considera equivocadas e injustas. E então cria projetos, estabelece parcerias, mobiliza pessoas, assume comandos, faz-e-acontece. […] Como, portanto, não abrir um texto acerca da obra de Zoravia Bettiol sem partir dessa flagrante característica de sua personalidade, ainda mais quando tal aspecto se corporifica de forma tão legítima em seus trabalhos? Senão, vejamos: entre a vastíssima produção da artista, temos gravuras, tapeçarias, desenhos, pinturas, jóias, ornatos, murais, objetos, performances e instalações, entre outros. Tudo ela faz com o mesmo envolvimento e paixão e, muitas vezes, simultaneamente, para o desespero dos mais ortodoxos. De fato, ao longo de 50 anos de trajetória, Zoravia provou de quase tudo e sem medos ou receios. […] Para fazer diferente, ela estuda, pesquisa, informa-se. Realiza um abrangente levantamento do que já existe, das possibilidades de interpretação e de atuação. Depois esboça a estratégia, discute o método, age. São esses desafios que a mobilizam e instigam, funcionando como catalisadores de sua criatividade. E se, nessa aventura, as coisas não saem como o planejado, aprende: não era para ser daquele jeito. Então tenta uma segunda vez, depois uma terceira, uma quarta, tantas vezes quanto forem necessárias, mostrando que os obstáculos que a vida nos proporciona, muitas vezes, podem nos levar adiante, basta que saibamos aproveitá-los. […]É um processo absolutamente normal, na poiética de qualquer artista, o encadeamento entre trabalhos, temas e linguagens. […] O exercício da série, portanto, é não apenas inconteste, como basilar de sua arte. Um segundo ponto proporcionado por essa prática são os desdobramentos que vão surgindo e que Zoravia sabe captar muito bem, seja consciente ou instintivamente. […] Aqui já vai meio século de produção incansável, somando mais de quatro mil obras, entre esboços, desenhos, gravuras, objetos, jóias, tapeçarias, pinturas… Tal como um caleidoscópio, seu brinquedo favorito, Zoravia Bettiol se mostra um pouco em cada uma delas, e a cada vez de forma diferente. Em sua pulsante energia, de erguer-se sempre, de tentar e experimentar permanentemente, lembra o sentido de seu próprio nome, que seus pais acertadamente escolheram: Zoravia como junção do iugoslavo zora, que significa amanhecer, e do latim via, caminho. Assim, caminho do amanhecer ou, numa licença de tradução, lembrando que todo amanhecer é um novo início, caminho do recomeçar.

Paula Ramos

Texto para o livro Zoravia Bettiol – A Mais Simples Complexidade

Porto Alegre, 2007

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