Armindo Trevisan

[…] Há qualquer coisa de imensamente lúdico na proposta de Zoravia. Qualquer coisa de carnavalesco, no bom sentido da palavra. Uma vontade de divertir o espectador, de constrangê-lo ao sorriso e ao riso. Primeiramente porque esses toucados e chapéus, trajes e mantas, são tão alheios à seriedade do dia-a-dia que ninguém se atreveria a usá-los numa rua de nossa capital. Em segundo lugar, porque a artista, já no título da pesquisa que integra a mostra, mexe com o espectador: Se você perder a cabeça use o chapéu mais próximo… de sua alma. A mensagem está mais ou menos clara: estamos um tanto fechados em nossas cabines sociais e ideológicas. Por que não perder um pouco a importância, e redescobrir que a arte começou, provavelmente, como um jogo, como uma força de desinibição e comunhão social? Se alguém quiser saber mais das intenções da artista, leia o seu texto teórico a respeito. Zoravia expõe aí uma série de razões que a levaram à pesquisa. Mas o que mais ressalta de seu trabalho é essa dimensão de graça folgazã, de humor jovial, que confere um valor suplementar, porém indiscutível, a todos os outros méritos da mostra, ou seja, às suas técnicas insólitas de tecido e pintura acrílica, com emprego de fibras naturais, materiais sintéticos, além de penas, lantejoulas, madeira e fibras metálicas. Enfim, eis uma tentativa artística de criar algo inédito, de introduzir o circo no museu, de dizer, com sutileza, que o rei vai nu… a despeito da parafernália ornamental que o cerca.

Armindo Trevisan
Porto Alegre, 1998

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