Ana Albani de Carvalho

Zoravia Bettiol é uma artista plural, no que diz respeito às técnicas e às linguagens através das quais desenvolve sua produção artística […] O presente ensaio tem como foco a produção em arte têxtil, realizada entre 1968 e 1998 por Zoravia Bettiol. Em face da amplitude e diversidade encontradas neste segmento, dividimos nossa análise em dois tópicos principais.

Um deles concentra-se na descrição e no comentário do que consideramos como aspectos-chave para análise da produção de Zoravia: o trabalho em séries, por questões temáticas, formais e materiais. Neste ponto enfocamos também a espacialidade e os modos de espacialização das peças. Isto é, o modo como a obra relaciona-se com o espaço expositivo e o papel atribuído ao espectador.  No que concerne à qualidade espacial das peças, podemos observar que algumas operam no plano bidimensional, enquanto outras tendem ao objeto e aos limites do escultórico. É importante ressaltar que a produção ligada ao têxtil ocupa um lugar de destaque no conjunto da obra de Zoravia Bettiol, ao lado da gravura. […] Zoravia também esteve à frente, no início da década de 80, de um projeto para criação do Museu Têxtil do Brasil, instituição que estaria vinculada aos Centro Gaúcho de Tapeçaria Contemporânea e ao Centro Paulista de Tapeçaria, proposta que atesta a importância conferida pela artista a este segmento. […] A década de 60 representa, para o cenário artístico brasileiro, um contexto bastante singular. Por um lado atravessado pelo experimentalismo das novas vanguardas artísticas, pela revolução cultural e de costumes, pela crítica social – através de um posicionamento politico, por parte dos artistas e agentes culturais, efetivamente de esquerda – e, por outro, confrontado à dura realidade da ditadura militar e da repressão […] É neste quadro que localizaremos o interesse de diversos artistas contemporâneos pela experimentação com a linguagem têxtil. A inserção da arte no cotidiano, assim como sua aproximação com técnicas tradicionais e/ou populares pode ser considerado como elemento componente desse cenário […] A arte têxtil não se resume ao emprego das técnicas mais tradicionais da tapeçaria. Pelo contrario, incorpora fibras diversas, materiais e procedimentos que enfatizam o experimental, sem desconhecer, por certo, os conhecimentos oriundos da boa tecelagem.

 

                                                                                              Ana Albani de Carvalho

Texto para o livro Zoravia Bettiol – A Mais Simples Complexidade

Porto Alegre, 2007

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